Caso 1. São Paulo / SP. Janeiro de 2026. Cachorro é morto com dez tiros porque estava latindo.

Caso 2: Erval Grande / RS. Janeiro de 2026. Homem amarra pedra no pescoço do cachorro e o joga em um açude até se afogar. Filmado pela filha criança.

Caso 3. Brasília / DF. Janeiro de 2026. Homem mata cachorro com tiros de espingarda.

Caso 4. Florianópolis. Janeiro de 2026. Cachorro é brutalmente torturado por adolescentes e precisou ser sacrificado.

Caso 5. Toledo / PR. Janeiro de 2026. Cachorro é morto a tiros por um homem.

Caso 6. Campo Bom / RS. Janeiro de 2026. Policial mata cachorro a tiros.

Caso 7. Maceió / CE. Janeiro de 2026. Diversos cães e gatos envenenados em condomínio residencial.

Outros tantos casos não noticiados.

No entanto, somente o caso 4 gerou enorme comoção na sociedade brasileira. O caso Orelha. A ponto de o Senado publicar nota afirmando que “A morte do cachorro Orelha, em Florianópolis, gerou revolta nas redes sociais e repercutiu entre senadores. Parlamentares cobraram responsabilização e defenderam punições mais rígidas para crimes de maus-tratos a animais”. (Fonte: Agência Senado)

Duas possíveis explicações. (escolham outras, se quiserem…)

A uma, O estado onde aconteceu. Infelizmente, Santa Catarina vem se notabilizando como o estado mais retrógrado em todos os sentidos que se queira analisar. Consegue levar ao extremo a filosofia de que “aqui tudo pode”. Afinal, como disse recentemente o governador em sua defesa perante o STF, no caso da lei que extinguiu as cotas raciais nas universidades estaduais, “somos o estado mais branco do Brasil”.

Ser o estado mais branco significa: podemos matar cachorros, gatos, pobres, pretos, mulheres, LGBTs e tudo o mais que afronte a hegemonia da nossa pele e da nossa visão superior de sociedade.

Santa Catarina ultrapassa, em muito, o que se imagina ser uma “extrema direita”, fomentada pelo bolsonarismo e por uma elite que a tudo pode e compra. Beira ao extremo da estupidez como sociedade.

A duas, pelo fato de que o caso só veio a público pela publicação de uma vídeo feito pelo zelador do prédio. O que aconteceu com ele diz tudo: pressionado, ameaçado, demitido. E o caso inicialmente abafado na Justiça. 

Esse é o detalhe importante: uma elite branca, rica e influente. O cão Orelha não importa. A brutalidade do crime não importa. Ter sido praticado por adolescentes não importa. O fato de os adolescentes, segundo investigação em curso pela Polícia Civil, serem contumazes na prática de delitos não importa. Era para ser apenas mais uma “notinha” nos jornais, como os demais casos citados. 

Mas não. Manifestações pelo Brasil estão sendo convocadas exigindo “Justiça para Orelha”. 

E devemos perguntar: por que justiça somente para Orelha? Por que senadores se mobilizam mesmo sabendo que existe um projeto de lei que tramita há mais de 20 anos na Câmara dos Deputados prevendo aumento das penas para quem pratica crimes contra animais? Por que não vemos revolta em Florianópolis ou mesmo no estado de Santa Catarina? 

Santa Catarina e seu povo (toda regra tem exceções, lembremos) atingiram um grau, repito, de estupidez humana como há muito tempo não se via no Brasil. 

Não bastará punir os pais dos adolescentes, responsáveis que são por eles; não bastaram as leves penas a que poderão estar sujeitos os próprios adolescentes. Em pouco tempo estarão aptos a continuarem a praticar outras violências contra tudo o que se interponha frente a supremacia catarinense.

Sabemos disso pelo exemplo do índio Galdino, brutalmente assassinado, queimado, em uma parada de ônibus enquanto dormia. Os criminosos? Passam bem, obrigado.

A hipocrisia, sabemos, é seletiva. 

E, enquanto for seletiva, nada mudará. Ou melhor, apenas os nomes dos próximos cães. Ou gatos. Ou mulheres. Ou trans. Ou negros. Ou pobres. Ou que, não sendo de Santa Catarina ou não sendo rico, ouse querer ir para lá.

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