O primeiro da fila
Recordo, por vezes, meus tempos de Jardim de Infância. Aos que ainda não tenham tanto tempo de vida, esclareço que esse era o nome, lúdico, que davam ao atual período chamado de Educação Infantil.
Época em que as crianças eram colocadas em fila para entrar na sala. Não sem antes perfilarem como se fossem soldados.
Até por educação militar e de família dita tradicional do interior gaúcho, tinha, mesmo sem ter a noção do que isso significava, a obrigação de ser o mais bem comportado, o que me garantia ser o “primeiro da fila”.
Talvez por isso tenha adquirido certa ojeriza, quando estudante adolescente, em tirar as melhores notas. Afinal, ser o primeiro da fila era sinônimo de sacrifícios. Passar de ano era o que bastava. Na faculdade? Turma do fundão.
Aos quinze anos, quando meu pai morreu, sequer me passou pela cabeça que teria me tornado o próximo da fila. Aos cinquenta e quatro, quando minha mãe morreu, ser o primeiro da fila não era possibilidade a ser pensada.
Anos mais tarde entendi o que significa ser o primeiro da fila. É a geração. Ano passado morreu a penúltima pessoa da geração do meu pai aos 100 anos, uma prima. Resta apenas o meu tio, irmão do meu pai, com 90 anos.
Significa dizer: sou, inevitavelmente, o próximo da fila. Ou o primeiro da fila, com o queiram. A minha geração. Retorno ao Jardim de Infância. Se naquela época era orgulho dos meus pais ser o primeiro da fila, espero que hoje não seja orgulho para as minhas filhas. Quiçá sequer para mim.
Assusta? Talvez não. Preocupa? Talvez sim. Em tudo correndo bem, quem sabe mais uns 30 anos. Afinal, família é longeva. Se tudo correr bem.
Não se trata do vislumbre que ser o primeiro da fila nos traz. Trata-se apenas de estar preparado para ser. No Jardim de Infância era fácil. Ali, perfilados, não sabíamos o que era a vida. Agora sabemos o que é a morte.
E não adianta saber que ser um aluno mediano nos salvava de esforços. Do primeiro ao último da fila, todos marchamos para a sala. A diferença? Na sala do Jardim sabíamos que iríamos brincar, desenhar, pintar, ter recreio, uma felicidade só.
E o que terá na próxima sala? Posso estar na fila da próxima geração, mas com certeza já estou me dirigindo para o fim da fila… Vá que dê certo, né?
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